É uma pergunta que nos fazemos cada vez mais na JeC Criações.

A impressão 3D evoluiu muito para além das peças funcionais, objetos geométricos ou figuras de formas simples. A combinação entre novas ferramentas de modelação, inteligência artificial, impressão multicolor e materiais cada vez mais variados permite-nos explorar um território particularmente interessante: transformar uma referência fotográfica num objeto tridimensional.

Para esta experiência escolhemos uma imagem do artista 50 Cent. O objetivo não era simplesmente criar uma figura inspirada na fotografia. Queríamos perceber até onde conseguiríamos preservar aquilo que torna uma pessoa imediatamente reconhecível: a expressão, as proporções do rosto, a postura e os pequenos detalhes que lhe dão identidade.

Fotografia de 50 Cent utilizada como referência visual para a criação da figura 3D
Fotografia utilizada exclusivamente como referência visual para este exercício de modelação. Imagem de terceiros; direitos pertencem ao respetivo titular. Este projeto não constitui uma colaboração ou produto oficial do artista.

Uma fotografia não tem costas

Uma fotografia contém muita informação — mas mostra apenas aquilo que a câmara conseguiu captar. Quando passamos para três dimensões, precisamos de muito mais.

A profundidade do rosto, o volume da cabeça, a forma da roupa e todas as superfícies que não estão visíveis na fotografia têm de ser interpretadas e transformadas em geometria.

Hoje, as ferramentas de inteligência artificial conseguem ajudar-nos a criar um excelente ponto de partida. Mas existe uma diferença enorme entre gerar um modelo 3D e ter um modelo realmente preparado para ser produzido.

A geometria precisa de ser analisada, os erros corrigidos e os detalhes adaptados às limitações físicas da impressão. Por vezes, uma pequena imperfeição digital que praticamente não se nota num monitor transforma-se num problema evidente quando passa a existir no mundo real.

Mais detalhe nem sempre significa melhor impressão

Alguns destes modelos podem ser compostos por milhões de polígonos. À primeira vista, quanto mais geometria existir, melhor deveria ser o resultado. Na prática, não é assim tão simples.

Existe um ponto a partir do qual estamos a guardar detalhes que uma impressora simplesmente não consegue reproduzir à escala final da peça. Ao mesmo tempo, modelos excessivamente complexos tornam todo o processo de edição e preparação consideravelmente mais pesado.

O desafio passa então por encontrar um equilíbrio: simplificar aquilo que não acrescenta valor ao objeto físico sem eliminar aquilo que lhe dá expressão. E num rosto esse equilíbrio é particularmente delicado.

Uma alteração aparentemente insignificante numa pálpebra, no nariz, na boca ou no contorno do rosto pode ser suficiente para mudar completamente a forma como reconhecemos uma pessoa. Por isso, otimizar uma figura deste género não significa simplesmente reduzir polígonos. Significa perceber quais são os detalhes que realmente importam.

A cor também precisa de ser interpretada

Depois da geometria chega outro desafio: a cor. Uma fotografia pode apresentar milhões de tonalidades diferentes. Uma impressão 3D multicolor trabalha com um conjunto muito mais limitado de materiais físicos.

E uma pele não é simplesmente “bege”, “castanha” ou “rosa”. A iluminação da fotografia, sombras, reflexos e características naturais da pele criam inúmeras variações de cor que não podemos simplesmente reproduzir através de um único filamento.

É necessário interpretar. Escolhemos tons de pele, cabelo, roupa e acessórios que, em conjunto, consigam preservar a leitura visual da referência original.

Do digital para o mundo real

É provavelmente o momento mais interessante de todo o processo.

Depois da análise da fotografia, criação do modelo, correção da geometria, otimização, preparação das cores, fatiamento e várias horas de impressão, aquilo que começou por existir apenas num ecrã passa finalmente a poder ser segurado na mão.

Vista frontal da figura 3D multicolor produzida pela JeC Criações
Vista frontal da figura 3D final, impressa em múltiplas cores.
Vista traseira da figura 3D multicolor produzida pela JeC Criações
A vista traseira mostra os volumes e detalhes que tiveram de ser interpretados para além da fotografia.

É também nesse momento que descobrimos coisas que nenhum render consegue mostrar: como reage a luz às diferentes superfícies, que detalhes ficaram realmente visíveis, que zonas poderiam ser melhoradas e que cores funcionaram como imaginávamos — ou queremos experimentar de outra forma na próxima impressão.

Cada peça torna-se também uma experiência.

Tecnologia, criatividade e muita experimentação

É precisamente esta combinação que mais nos interessa na JeC Criações.

A inteligência artificial pode ajudar-nos a interpretar uma fotografia. O software permite-nos trabalhar e corrigir o modelo. A impressora transforma milhões de coordenadas digitais em matéria. E os materiais dão finalmente cor e textura ao objeto.

Mas nenhuma destas ferramentas trabalha isoladamente. Entre uma fotografia e a peça final existem decisões, testes, correções e muitas horas de trabalho.

E talvez seja isso que mais nos fascina nas impressões 3D ultrarrealistas. Não estamos simplesmente a copiar uma fotografia. Estamos a interpretá-la numa terceira dimensão.

E cada novo projeto faz-nos voltar à mesma pergunta com que começam muitas das experiências na JeC: “Será que conseguimos transformar isto numa peça?”

Normalmente, é aí que começam os projetos mais interessantes.